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Nanomateriais no trabalho: riscos que o PGR deve avaliar

22 de setembro de 2026


Nanomateriais no trabalho representam um dos desafios mais complexos para o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais porque o produto utilizado pela empresa pode possuir o mesmo nome químico de uma substância conhecida e, ainda assim, apresentar propriedades diferentes quando produzido em escala nanométrica. A Fundacentro utiliza como referência materiais desenvolvidos aproximadamente entre 1 e 100 nanômetros, dimensão na qual características como área superficial, reatividade, forma, solubilidade, revestimento e interação biológica podem se modificar significativamente. Isso significa que avaliar apenas a composição química tradicional pode ser insuficiente para compreender determinada exposição. Em indústrias, laboratórios, construção civil, cosméticos, produtos farmacêuticos, tintas, revestimentos, eletrônicos, agricultura, materiais têxteis e diversos outros setores, a pergunta deixou de ser apenas “qual substância utilizamos?” e passou a incluir “essa substância possui uma forma nanoestruturada, ela pode ser liberada durante o processo e como os trabalhadores podem entrar em contato com ela?”.

A AMBRAC apoia empresas na identificação e avaliação de exposições emergentes, integrando informações de processo, Ficha com Dados de Segurança (FDS), literatura técnica, Higiene Ocupacional, Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), proteção respiratória e Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO). O objetivo não é classificar todo produto com nanotecnologia como automaticamente perigoso, porque a própria Fundacentro ressalta que os efeitos variam entre materiais, mas também não é tecnicamente adequado assumir que uma substância já conhecida continuará apresentando exatamente o mesmo comportamento apenas porque sua composição nominal permanece igual.

Conteúdo da Postagem:

Resposta direta: nanomateriais precisam entrar no PGR?

Quando a empresa produz, manipula, mistura, aplica, transfere, pesquisa, usina, limpa, mantém ou descarta materiais capazes de gerar exposição a nanomateriais, essa condição precisa ser analisada dentro do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. A NR-1 não depende da existência de uma norma intitulada especificamente “nanotecnologia” para obrigar a organização a reconhecer perigos presentes em seus processos. A NR-9, por sua vez, estabelece requisitos para avaliação e controle das exposições ocupacionais a agentes físicos, químicos e biológicos, o que fornece a estrutura regulatória para investigar agentes químicos mesmo quando a caracterização da exposição exige métodos diferentes daqueles tradicionalmente utilizados para poeiras e vapores convencionais.

O desafio está justamente na incerteza. A Fundacentro destaca que ainda não existem, de maneira geral, limites de exposição específicos para grande parte dos nanomateriais e que determinados métodos quantitativos tradicionais possuem limitações quando aplicados à escala nano. A ausência de um limite, entretanto, não significa ausência de risco nem autorização para retirar o agente do inventário. Em cenários de incerteza, a abordagem recomendada pelos materiais técnicos da Fundacentro é preventiva: reconhecer o material, estudar suas propriedades, analisar como ocorre a tarefa, estimar a possibilidade de exposição, utilizar métodos qualitativos quando necessários e implementar controles antes de esperar que exista certeza absoluta sobre todos os possíveis efeitos.

Por Lucas Esteves, Especialista em Medicina e Segurança do Trabalho e Sócio da AMBRAC.

Pequeno não significa necessariamente biologicamente irrelevante

A escala nanométrica modifica uma característica essencial do material: sua relação entre superfície e volume. Partículas muito pequenas podem apresentar grande área superficial em relação à massa e, dependendo de sua composição, forma e tratamento de superfície, isso pode modificar reatividade química e interação com sistemas biológicos. A Nota Técnica nº 1/2018 da Fundacentro chama atenção justamente para essa diferença e explica que propriedades físicas, químicas e atividade biológica podem se comportar de maneira diferente daquelas observadas no mesmo material em escala superior.

Essa informação não autoriza afirmar que toda nanopartícula seja mais tóxica. A Fundacentro é cuidadosa ao registrar que alguns nanomateriais apresentam riscos maiores do que suas formas de maior dimensão, enquanto outros não, e que a toxicidade depende de múltiplas características. Para o PGR, essa nuance é fundamental: a classificação não deve ocorrer apenas pelo prefixo “nano”, mas também não pode simplesmente reproduzir a avaliação utilizada para o material convencional sem verificar se existem evidências específicas sobre a forma nanométrica.

“Nanomaterial não deve ser tratado como perigoso apenas porque é pequeno, nem como seguro apenas porque conhecemos sua composição química em escala convencional. A avaliação precisa considerar material, forma, superfície, processo e possibilidade real de exposição do trabalhador.”

Lucas Esteves, AMBRAC

A nanotecnologia já está presente muito além dos laboratórios de pesquisa

A discussão sobre nanomateriais ainda costuma ser associada a universidades e centros de pesquisa, porém sua aplicação alcança setores industriais e comerciais bastante diferentes. A própria Fundacentro cita aplicações nas indústrias farmacêutica, alimentícia, têxtil, da construção civil, de produtos de higiene e beleza e em atividades agrícolas, além de materiais avançados utilizados em diversos processos produtivos. Nanopartículas podem integrar tintas, revestimentos, aditivos, catalisadores, cosméticos, materiais cimentícios, componentes eletrônicos, produtos antibacterianos e estruturas destinadas a melhorar resistência, condutividade, desempenho térmico ou outras propriedades.

Isso cria um problema de reconhecimento. Uma empresa pode utilizar nanotecnologia sem que a palavra “nano” apareça de forma evidente na rotina operacional. Compras conhece apenas o nome comercial, produção conhece a finalidade do produto, Qualidade analisa desempenho e SST recebe uma FDS genérica sem informação suficiente para perceber que uma fração do material possui dimensões nanométricas. Por isso, a investigação começa com fornecedores, especificações técnicas, composição, descrição do produto e diálogo entre as áreas que introduzem novas tecnologias no processo.

O primeiro passo não é medir: é descobrir exatamente o que está sendo utilizado

A Nota Técnica da Fundacentro orienta que a caracterização do risco comece pela coleta de informações básicas sobre fluxo de trabalho, pessoas, tarefas, materiais utilizados, FDS, literatura disponível e situações potenciais de exposição. Antes de escolher instrumento de medição, a empresa precisa saber qual nanomaterial existe, em que concentração aparece no produto, se está em pó, suspensão líquida, matriz sólida ou outra apresentação, em quais etapas pode ser liberado e quem participa dessas etapas.

Essa sequência é importante porque duas empresas podem comprar produtos contendo a mesma nanopartícula e apresentar exposições completamente diferentes. Em uma, o material chega incorporado a um componente sólido e permanece encapsulado durante todo o uso; na outra, chega como pó seco e precisa ser pesado, transferido e misturado manualmente. O nome químico é igual, mas a probabilidade de liberação para o ambiente muda profundamente.

Nanopó, suspensão e material incorporado em matriz não representam o mesmo cenário

A forma física precisa fazer parte da avaliação. Nanopós com elevada tendência à dispersão podem produzir aerossóis durante abertura de embalagens, pesagem, transferência, mistura ou limpeza. Suspensões líquidas reduzem determinados mecanismos de dispersão aérea durante o manuseio normal, mas podem produzir aerossóis quando pulverizadas, atomizadas ou submetidas a determinadas operações. Nanomateriais incorporados em matriz sólida podem apresentar baixa possibilidade de liberação durante uso normal e gerar cenário diferente quando o material é cortado, lixado, perfurado, usinado, triturado ou submetido a desgaste.

Por isso, a empresa não deveria criar uma classificação estática do tipo “produto com nanotecnologia = risco alto” nem “produto sólido = sem exposição”. O que determina a probabilidade ocupacional é a combinação entre propriedade do material e tarefa. A avaliação precisa seguir o ciclo real de produção, uso, manutenção e descarte.

A via respiratória merece atenção especial

A literatura técnica compilada pela Fundacentro identifica a inalação como uma das principais rotas de entrada de nanopartículas quando elas se encontram dispersas no ambiente de trabalho. Dependendo das características do material, partículas inaladas podem alcançar regiões profundas do sistema respiratório e determinados tipos podem apresentar comportamento biológico distinto de partículas maiores.

Isso torna fundamentais as etapas capazes de gerar aerossol: abertura de recipientes, pesagem, mistura, alimentação de equipamento, pulverização, processo térmico, acabamento, lixamento, limpeza de derramamentos, manutenção de sistemas de exaustão e descarte de resíduos. A exposição pode ocorrer justamente em tarefas secundárias que o processo formal classifica apenas como “limpeza” ou “manutenção”, embora sejam os momentos em que o material anteriormente contido passa a ser mobilizado.

Contato dérmico e ingestão também não devem ser ignorados

Embora a inalação seja frequentemente o primeiro foco, a Nota Técnica da Fundacentro registra que contato com a pele e ingestão também integram as rotas que precisam ser consideradas. O comportamento dérmico depende de tamanho, forma, carga superficial, estado de agregação, revestimento e condição da própria pele, entre outras variáveis, e ainda existem incertezas científicas importantes sobre diversos materiais.

A ingestão ocupacional pode acontecer indiretamente quando partículas contaminam mãos, superfícies, alimentos ou objetos levados à boca. Esse cenário reforça a importância de práticas básicas de higiene, áreas adequadas para alimentação, proibição de manipular alimentos em locais de trabalho contaminados, limpeza compatível e retirada correta de equipamentos de proteção. Em riscos emergentes, controles elementares de higiene continuam sendo fundamentais.

Limite de exposição inexistente não significa que a empresa deve esperar

Grande parte da Higiene Ocupacional tradicional compara resultados quantitativos com limites de exposição. Com nanomateriais, essa estratégia enfrenta uma dificuldade adicional porque ainda existem poucos valores específicos e não há limites legais brasileiros próprios para grande parte dessas substâncias em sua forma nanométrica. Além disso, medir somente massa pode não capturar adequadamente características relevantes quando número de partículas, área superficial, forma e distribuição de tamanho influenciam o comportamento.

A Fundacentro aponta essa dificuldade e apresenta métodos qualitativos de controle por faixas, conhecidos internacionalmente como control banding, como alternativa útil para situações em que a incerteza é elevada ou a avaliação quantitativa convencional não consegue, sozinha, orientar a decisão. Isso não significa abandonar medições. Significa reconhecer que o gerenciamento pode precisar combinar dados quantitativos, características do material e avaliação qualitativa da tarefa.

Controle de bandas transforma incerteza em decisão preventiva

O controle por faixas busca classificar o perigo e a probabilidade de exposição para direcionar medidas de prevenção proporcionais ao nível de risco. Em vez de depender exclusivamente de um número-limite inexistente, são analisadas características como toxicidade conhecida, morfologia, solubilidade, quantidade manipulada, pulverulência, frequência, duração e condições de controle já existentes.

Essa abordagem vem sendo estudada pela Fundacentro há anos e resultou no desenvolvimento da NanoCB-Fundacentro, ferramenta voltada à avaliação e ao controle dos riscos ocupacionais relacionados à manipulação de nanomateriais em ambientes internos. A ferramenta foi apresentada pela instituição em 2025 e considera tanto a severidade potencial quanto a probabilidade de exposição, além da eficácia de equipamentos de proteção coletiva, medidas administrativas e equipamentos de proteção individual.

NanoCB-Fundacentro não é um “laudo automático”

Uma ferramenta qualitativa não substitui o conhecimento do processo nem transforma respostas de formulário em verdade absoluta. A própria apresentação da NanoCB destaca a importância da participação dos trabalhadores na avaliação e considera variáveis relacionadas à atividade real. A qualidade do resultado depende, portanto, da qualidade das informações inseridas.

Se a empresa informa que o material é pouco pulverulento porque observa apenas o produto já misturado, mas ignora a etapa em que o pó é aberto e pesado, a avaliação pode subestimar a probabilidade. Da mesma forma, registrar “exaustão local existente” sem verificar seu desempenho real pode produzir uma falsa impressão de controle. O método precisa ser aplicado por profissionais capazes de compreender material, exposição, processo e eficácia das barreiras.

FDS é importante, mas não encerra a investigação

A Ficha com Dados de Segurança continua sendo uma fonte essencial para identificar composição, perigos, controles, primeiros socorros, armazenamento e outras informações. Entretanto, na avaliação de nanomateriais ela deve ser considerada como parte de um conjunto maior de evidências. A própria Fundacentro recomenda combinar a ficha com literatura técnica, informações específicas do material, dados do fornecedor e reconhecimento das condições de trabalho.

Uma ficha que apresenta apenas a substância em sua forma química genérica pode não responder todas as perguntas necessárias sobre tamanho, distribuição das partículas, revestimento, forma, estado de agregação ou propriedades nanoespecíficas. Quando essas informações forem relevantes e não estiverem disponíveis, a empresa deve buscá-las junto ao fabricante ou fornecedor e registrar a incerteza dentro de sua avaliação.

A compra de um novo material deveria acionar gestão de mudança

Nanotecnologia pode entrar no processo por uma decisão comercial aparentemente simples: substituir uma tinta, utilizar um aditivo mais resistente, adquirir um revestimento antimicrobiano, melhorar a performance de determinado polímero ou adotar um produto que contém nanopartículas. Se SST só descobre depois que o material já está em produção, perde-se a oportunidade de antecipar controles antes da exposição.

Uma boa governança estabelece que novos produtos químicos e materiais tecnológicos passem por avaliação antes da compra definitiva. Compras, Engenharia, Produção, Qualidade e SST precisam compartilhar informações para verificar FDS, especificações, forma de utilização, necessidade de contenção, ventilação, EPI, armazenamento e descarte antes da implementação. Essa prática vale para produtos químicos em geral e se torna ainda mais relevante diante de materiais com incerteza toxicológica maior.

Contenção costuma ser mais confiável do que depender do comportamento individual

A lógica da hierarquia de controles permanece válida. Sempre que tecnicamente possível, manipular um nanomaterial em sistema fechado, limitar a dispersão na fonte ou automatizar uma etapa tende a oferecer barreira mais consistente do que depender exclusivamente de máscaras, luvas e comportamento individual. A Fundacentro reforça a prioridade da proteção coletiva em seus materiais sobre nanomateriais.

Em laboratório ou processo industrial, isso pode significar substituir transferência aberta por sistema fechado, utilizar cabine ou equipamento de contenção compatível, automatizar dosagem, reduzir altura de queda durante transferência, comprar material em suspensão em vez de pó quando tecnicamente apropriado ou eliminar etapas que geram dispersão. A solução deve ser determinada pela avaliação, evitando simplesmente copiar controles utilizados para poeiras convencionais.

Exaustão local precisa capturar e reter o contaminante

A Nota Técnica da Fundacentro faz uma observação particularmente importante: instalar ventilação local exaustora não é suficiente se o material coletado simplesmente for transportado para outro ponto sem retenção adequada. O documento utiliza como referência técnica sistemas associados a filtragem de alta eficiência, como HEPA, para retenção de partículas em aplicações correspondentes.

Para a empresa, a mensagem é mais ampla: o sistema de controle precisa ser avaliado como um conjunto, desde o ponto de captação até a descarga e o descarte do material retido. Uma excelente coifa conectada a filtro inadequado pode apenas deslocar a exposição da bancada para a casa de máquinas ou para a manutenção. A troca de filtros, abertura de coletores e limpeza do sistema também precisam entrar na análise porque podem concentrar o material capturado durante semanas ou meses.

Manutenção é um dos momentos em que a exposição pode aumentar

Operadores de produção podem trabalhar durante meses com processos enclausurados e baixa liberação aparente, enquanto equipes de manutenção abrem filtros, dutos, câmaras, misturadores e equipamentos onde o nanomaterial ficou acumulado. Se o PGR analisa apenas a operação normal, essa exposição pode permanecer praticamente invisível.

O procedimento de manutenção precisa considerar descontaminação, isolamento, método de abertura, forma de limpeza, acondicionamento de resíduos e proteção dos trabalhadores responsáveis. Prestadores terceirizados também precisam receber informação suficiente sobre o agente e as condições da intervenção. Não é aceitável proteger intensamente quem manipula a matéria-prima e deixar a manutenção trabalhar sem informação porque “a máquina já está desligada”.

Limpeza com métodos que ressuspendem partículas pode aumentar o problema

A forma de limpar uma superfície contaminada pode modificar significativamente a exposição. Varrer a seco ou utilizar ar comprimido em material particulado tende a ressuspender partículas e espalhar a contaminação para uma área maior, o que contraria a lógica de contenção. Procedimentos precisam ser selecionados conforme características do nanomaterial e orientação técnica aplicável, priorizando soluções capazes de recolher ou reter o material sem criar nova nuvem.

A empresa também deve planejar como panos, filtros, absorventes, embalagens e demais materiais utilizados na limpeza serão acondicionados e descartados. Depois que um resíduo concentra nanomaterial, tratá-lo como lixo comum sem qualquer análise pode transferir exposição para limpeza, coleta interna, transporte ou destinação.

Proteção respiratória precisa partir da avaliação, não do medo da palavra “nano”

PFF2, PFF3, respiradores semifaciais ou outros equipamentos não devem ser escolhidos automaticamente apenas porque existem nanopartículas. A proteção respiratória precisa ser selecionada a partir da avaliação da exposição, características do contaminante, tarefa e condições do ambiente, seguindo a NR-6 e as orientações do Programa de Proteção Respiratória quando aplicáveis.

Da mesma forma, utilizar respirador não encerra a necessidade de controle coletivo. A organização precisa primeiro reduzir a liberação na fonte e depois avaliar a proteção residual necessária. Vedação facial, ensaio de vedação, treinamento, conservação e uso durante todo o período de exposição continuam importantes. Um filtro tecnicamente adequado perde efetividade quando o equipamento não veda no rosto ou é retirado durante a tarefa.

Luvas também não devem ser selecionadas apenas porque existe contato com nanopartículas

A escolha de proteção para as mãos precisa considerar composição química, matriz do produto, solventes presentes, possibilidade de permeação, resistência mecânica, tempo de contato e forma de utilização. Nanopartícula suspensa em um solvente, por exemplo, exige analisar tanto o material nanoestruturado quanto o veículo químico que o contém.

A FDS, especificações técnicas e informações de compatibilidade precisam ser utilizadas conjuntamente. Além disso, o procedimento de retirada das luvas merece atenção, porque uma superfície externa contaminada pode transferir material para mãos, roupas, maçanetas e objetos pessoais se o EPI for removido de forma inadequada.

Roupas de trabalho podem transportar contaminação para fora da área

Quando determinada atividade possui potencial de deposição de partículas sobre vestimentas, é necessário avaliar como ocorre troca, acondicionamento, limpeza e circulação entre áreas. O objetivo é evitar que uma barreira criada dentro do processo seja perdida quando o trabalhador leva o contaminante para refeitório, vestiário, veículo ou residência.

A estratégia depende do nível e natureza da exposição. Nem toda operação com nanomaterial exige roupa especial, porém a possibilidade de contaminação secundária precisa ser avaliada quando o processo efetivamente gera deposição. Mais uma vez, a decisão deve partir do risco e não de uma regra universal aplicada a qualquer produto rotulado como nanotecnológico.

PCMSO precisa conhecer a exposição, mas não inventar exames sem fundamento

A Medicina Ocupacional deve trabalhar de forma coerente com os riscos identificados no PGR. A Nota Técnica da Fundacentro recomenda vigilância da saúde diante das incertezas relacionadas a nanomateriais, incluindo valorização de queixas, histórico médico e ocupacional, exames periódicos e avaliações adicionais quando tecnicamente justificadas. Isso não significa criar uma bateria padronizada de exames para qualquer trabalhador que utiliza produto com nanotecnologia.

A estratégia precisa ser baseada nas características do agente, evidências existentes, órgãos potencialmente afetados, intensidade e duração da exposição e orientação científica disponível. O erro seria tanto não informar a Medicina Ocupacional sobre a presença do nanomaterial quanto solicitar exames sem utilidade clínica ou ocupacional demonstrada. PGR e PCMSO precisam conversar para que a vigilância seja proporcional ao risco.

A participação dos trabalhadores é parte relevante da avaliação

A Fundacentro reforça em sua Nota Técnica e na abordagem da NanoCB que os trabalhadores possuem papel importante na identificação e controle do risco. Isso é particularmente relevante porque determinadas liberações só aparecem durante situações operacionais que não constam do procedimento formal: material que gruda na embalagem, limpeza manual após derramamento, necessidade de soprar determinada peça, falha frequente de exaustão, abertura de equipamento para destravar o processo ou improvisos durante manutenção.

O profissional de SST pode conhecer profundamente a toxicologia e ainda perder informações decisivas se observar apenas o fluxo prescrito. Ouvir quem executa a atividade ajuda a compreender o trabalho real e aumenta a qualidade da estimativa de exposição.

Obrigação legal e recomendação preventiva: qual é a diferença?

A obrigação legal nasce do conjunto das Normas Regulamentadoras aplicáveis. A NR-1 exige gerenciamento dos riscos ocupacionais e implementação de medidas de prevenção; a NR-9 estabelece requisitos para avaliação e controle das exposições a agentes físicos, químicos e biológicos; a NR-26 disciplina comunicação de perigos e FDS; a NR-6 estabelece regras para seleção e utilização de EPI; e a NR-7 exige que o PCMSO seja planejado de acordo com os riscos ocupacionais identificados. A inexistência de uma NR exclusiva para nanotecnologia não afasta essas obrigações quando o processo efetivamente apresenta exposição.

A recomendação preventiva avança sobre a área em que a ciência ainda possui incertezas. Fundacentro recomenda abordagem baseada no princípio da precaução, participação dos trabalhadores, busca ativa de informação, análise do ciclo de vida do material e utilização de ferramentas qualitativas quando a quantificação isolada não consegue representar adequadamente o risco. Em outras palavras, a legislação estabelece a obrigação de gerenciar; as boas práticas técnicas ajudam a empresa a decidir como gerenciar quando o conhecimento ainda está em desenvolvimento.

Tabela prática: o estado físico do nanomaterial muda a exposição

Situação no processo Possibilidade de liberação Ponto crítico da avaliação Controle a considerar
Nanopó seco Pode dispersar durante abertura, pesagem, transferência e mistura Pulverulência, quantidade, frequência e método de manuseio Substituição da forma física, contenção e captação na fonte
Suspensão líquida Tende a apresentar cenário diferente do pó, mas pode gerar aerossol Pulverização, agitação, respingos e composição do veículo Processo fechado, controle de aerossol e proteção dérmica compatível
Material incorporado em matriz sólida Pode ser baixa durante uso intacto e aumentar durante desgaste Corte, lixamento, perfuração, usinagem e descarte Controle do processo que libera partículas
Processo térmico Pode gerar partículas ultrafinas ou aerossóis específicos Temperatura, material, emissão e proximidade do trabalhador Enclausuramento, exaustão e caracterização da emissão
Manutenção de equipamento Material acumulado pode ser liberado durante abertura Filtros, dutos, depósitos internos e método de limpeza Descontaminação, isolamento e procedimento específico
Resíduo contaminado Pode gerar exposição durante coleta, transporte e descarte Acondicionamento e manipulação posterior Segregação, embalagem e destinação conforme avaliação

Os 7 erros que fazem o PGR ignorar nanomateriais sem perceber

1. Avaliar somente o nome químico e ignorar a forma nanométrica

Uma empresa pode conhecer há décadas determinada substância e possuir extensa experiência com sua versão convencional. O erro acontece quando transfere automaticamente essa experiência para a forma nano sem verificar se tamanho, morfologia, superfície ou revestimento modificam comportamento e toxicidade. A Fundacentro ressalta que materiais em nanoescala podem apresentar propriedades diferentes e que alguns demonstram efeitos superiores aos observados em partículas maiores da mesma composição. A solução não é declarar que toda versão nano seja mais perigosa, mas reconhecer que ela precisa ser investigada como forma específica dentro da caracterização do risco.

2. Procurar limite de tolerância e concluir que não existe risco porque não encontrou um número

A inexistência de limite ocupacional específico é justamente uma das dificuldades da gestão de nanomateriais. Quando a empresa depende exclusivamente de comparação quantitativa com um valor legal, pode ficar sem mecanismo decisório. Controle de bandas, análise de severidade, possibilidade de exposição e princípio da precaução oferecem caminhos para decidir medidas mesmo quando a ciência ainda não produziu um limite consolidado. Esperar a regulamentação alcançar cada novo material pode significar expor trabalhadores durante anos sem controles proporcionais à incerteza.

3. Considerar a FDS suficiente mesmo quando ela não responde às perguntas nanoespecíficas

A FDS deve ser consultada, porém o processo de avaliação não termina com seu arquivamento. A Fundacentro recomenda complementar a ficha com literatura técnica e informações do próprio processo. Se não está claro se o material contém nanopartículas, qual faixa de tamanho, forma, revestimento ou estado de agregação, essas lacunas precisam ser registradas e investigadas junto ao fornecedor. Utilizar uma ficha genérica como prova de que o risco está completamente caracterizado pode produzir um inventário aparentemente completo e tecnicamente insuficiente.

4. Avaliar apenas o operador e esquecer manutenção, limpeza e descarte

O trabalhador da produção pode manipular um sistema fechado, enquanto o mecânico abre o filtro onde o material se acumulou durante meses. A equipe de limpeza pode remover pó depositado em superfícies e o setor de resíduos pode manusear embalagens e absorventes contaminados. Se o inventário considera apenas a função oficialmente responsável pelo produto, diversas exposições secundárias desaparecem do PGR. A análise precisa acompanhar o ciclo do material desde a entrada no estabelecimento até sua destinação final.

5. Instalar exaustão e não avaliar para onde as nanopartículas estão indo

Captar contaminante na fonte é importante, mas o sistema de exaustão precisa efetivamente retê-lo e evitar transferência para outro ambiente ou trabalhador. Filtros, dutos, coletores e descarga precisam ser considerados como parte do controle, assim como sua manutenção. Uma barreira que funciona bem durante produção pode criar exposição relevante justamente durante troca de filtros se não existir procedimento específico. A eficácia deve ser verificada ao longo de todo o sistema.

6. Distribuir respiradores como resposta principal à incerteza

Quando a empresa não sabe exatamente como avaliar determinado nanomaterial, existe tendência de adotar EPI como medida rápida. Essa abordagem pode ser necessária de forma complementar ou provisória, mas não substitui contenção, automação, redução da dispersão e controles de engenharia. Respiradores também dependem de seleção correta, vedação e utilização contínua. A estratégia precisa seguir a hierarquia preventiva e considerar proteção individual como parte do sistema, não como solução única para um processo mal controlado.

7. Introduzir tecnologia nova sem informar trabalhadores, CIPA, SST e Medicina Ocupacional

A nanotecnologia pode entrar pela área de Pesquisa e Desenvolvimento, Engenharia ou Compras e permanecer desconhecida das equipes responsáveis pela prevenção. A Fundacentro destaca a importância da informação, da qualificação dos trabalhadores e de sua participação nas medidas de controle. Se o produto muda antes que o gerenciamento seja revisado, o PGR passa a descrever um processo que já não existe. A gestão de mudança deve ocorrer antes da introdução da tecnologia, permitindo que medidas de contenção, capacitação, higiene e vigilância da saúde sejam planejadas junto da inovação.

O risco precisa ser avaliado durante todo o ciclo de vida do material

A Nota Técnica da Fundacentro recomenda considerar o ciclo de vida do nanomaterial, desde sua produção e distribuição até utilização, manutenção e descarte. Essa perspectiva corrige uma falha recorrente: analisar somente o momento em que a matéria-prima é adicionada ao processo. Em determinadas operações, a maior probabilidade de exposição pode ocorrer depois, quando o produto é lixado, reciclado, reparado ou descartado.

Imagine um revestimento que contém nanopartículas e permanece estável durante aplicação e cura. Anos depois, uma equipe de manutenção remove esse revestimento por lixamento. A empresa que analisou apenas a implantação inicial pode não ter qualquer procedimento para a fase em que o material volta a se transformar em particulado respirável. Gestão de ciclo de vida significa antecipar também essas etapas futuras.

Avaliação quantitativa continua importante, mas pode exigir técnicas especializadas

A dificuldade de medir nanomateriais não deve ser interpretada como impossibilidade de avaliação. A Fundacentro descreve abordagens que combinam amostragem, caracterização por microscopia e análise de concentração, dependendo do material e do objetivo. O problema é que métodos tradicionais baseados apenas em massa total podem não representar todas as características relevantes.

Quando a situação justificar avaliação quantitativa, a empresa deve buscar profissionais e laboratórios capazes de selecionar metodologia apropriada ao material e ao processo. Em alguns cenários, medições de fundo também são importantes para diferenciar nanopartículas originadas pela atividade de partículas ultrafinas já existentes no ambiente por outras fontes, como combustão.

Nanopartícula fabricada e partícula ultrafina de processo não são conceitos idênticos

Nanomateriais engenheirados são produzidos intencionalmente para alcançar determinadas propriedades. Já partículas ultrafinas também podem surgir incidentalmente em processos de combustão, soldagem, motores, processos térmicos e outras atividades. Ambas podem estar em escala nanométrica, porém sua origem, composição e forma de avaliação podem ser diferentes.

Essa distinção evita limitar o tema ao setor que compra produtos “nano”. Determinados processos podem gerar partículas ultrafinas mesmo sem utilizar matéria-prima classificada comercialmente como nanotecnológica. A avaliação ocupacional precisa considerar aquilo que o processo emite e não apenas aquilo que consta da nota fiscal de entrada.

O princípio da precaução não significa proibir automaticamente a tecnologia

A Fundacentro recomenda abordagem ativa de precaução diante das incertezas científicas. Isso não significa impedir toda inovação ou presumir que qualquer nanomaterial provoque dano. Significa agir antes da certeza absoluta quando existem razões tecnicamente plausíveis para preocupação, avaliar alternativas, monitorar o processo, produzir informação e revisar controles conforme o conhecimento evolui.

Na prática empresarial, o princípio pode signific preferir apresentação menos dispersiva, reduzir manipulação aberta, testar controles antes de ampliar produção, limitar quantidade durante etapas experimentais e intensificar monitoramento quando a informação toxicológica for insuficiente. A inovação continua ocorrendo, porém acompanhada por barreiras proporcionais à incerteza.

PGR precisa registrar também as incertezas relevantes

Um inventário de riscos não deveria apresentar falsa precisão. Quando determinada característica do material é desconhecida, essa informação pode ser registrada como lacuna a ser resolvida no plano de ação. O erro é preencher o campo com classificação aparentemente definitiva sem evidência suficiente.

Registrar incerteza permite criar uma ação concreta: solicitar informação ao fornecedor, revisar literatura, consultar especialista, realizar avaliação adicional, melhorar contenção provisoriamente ou substituir o produto enquanto dados mais robustos são obtidos. Um PGR tecnicamente honesto distingue aquilo que a empresa sabe, aquilo que estima e aquilo que ainda precisa investigar.

A CIPA pode ajudar a identificar exposições que a documentação não mostra

A Fundacentro destaca a participação dos trabalhadores nas ações relacionadas às nanotecnologias. A Comissão Interna de Prevenção de Acidentes e de Assédio pode contribuir trazendo situações reais de manipulação, falhas de procedimentos, dificuldades de limpeza e alterações de processo que não chegaram formalmente ao SST.

O objetivo não é transferir à CIPA a responsabilidade técnica por toxicologia ou Higiene Ocupacional, mas utilizar o conhecimento dos trabalhadores como fonte de reconhecimento. Em riscos emergentes, essa participação é especialmente importante porque a documentação técnica pode estar incompleta e a experiência operacional revelar pontos de liberação que o projeto inicial não previa.

Treinamento precisa explicar o risco sem transformar incerteza em medo

Informação sobre nanomateriais deve ser clara e proporcional ao que se conhece. Dizer apenas que “nanopartículas são perigosas” gera medo sem orientar prevenção; afirmar que “não existe comprovação de dano” como justificativa para ausência de controle também distorce o conhecimento disponível.

O trabalhador precisa entender qual material utiliza, como a exposição pode ocorrer, quais procedimentos reduzem a dispersão, por que determinados controles existem, como agir em derramamentos e onde obter informação. Quando existe incerteza, ela pode ser comunicada de forma transparente: nem todos os efeitos são conhecidos e, justamente por isso, determinadas precauções foram adotadas.

Derramamento de nanopó exige procedimento pensado antes do acidente

Se o material pode se dispersar facilmente, a empresa precisa decidir antecipadamente como um derramamento será isolado, recolhido, acondicionado e descontaminado. A pior estratégia é improvisar durante o evento utilizando vassoura, ar comprimido ou aspirador inadequado e transformar pequena quantidade depositada no piso em aerossol distribuído por toda a sala.

O procedimento precisa considerar tipo de material, quantidade, área envolvida, equipamentos disponíveis e proteção dos trabalhadores responsáveis pela resposta. Depois do recolhimento, resíduos e materiais utilizados na limpeza também precisam seguir fluxo definido. O treinamento deve ocorrer antes da emergência.

Contratadas precisam saber quando existe nanomaterial no equipamento

Uma empresa especializada em manutenção pode receber ordem de serviço para limpar um duto, trocar filtro ou abrir equipamento sem saber que o material acumulado possui nanopartículas. Se essa informação fica restrita ao laboratório ou ao setor de produção, o prestador prepara o trabalho com base em risco incompleto.

A contratante precisa integrar os perigos sob sua gestão às empresas contratadas, conforme os princípios de gerenciamento da NR-1. Isso envolve informar o material, condições de exposição possíveis, controles necessários e procedimentos específicos antes da intervenção. Terceirizar manutenção não transfere o conhecimento do processo automaticamente.

Quais documentos precisam conversar na gestão de nanomateriais?

O inventário do PGR, plano de ação, FDS, especificações técnicas do fornecedor, avaliações de Higiene Ocupacional, procedimentos operacionais, Programa de Proteção Respiratória quando aplicável, seleção de EPI, PCMSO, registros de treinamento, procedimentos de derramamento, manutenção de exaustão e documentação de resíduos precisam refletir o mesmo cenário. Uma FDS pode indicar uma substância, o PGR descrevê-la genericamente como poeira e a área de pesquisa saber que ela está sendo utilizada em nanoescala; essa desconexão precisa ser corrigida.

A gestão de mudança também deve possuir registro. Se a empresa substitui a versão convencional por versão nanoestruturada, ou altera pó para suspensão, muda a quantidade produzida ou automatiza o processo, a avaliação precisa acompanhar a modificação. Um PGR revisado apenas por calendário corre o risco de permanecer defasado diante de tecnologias que evoluem muito mais rapidamente.

O que não deve ser feito?

A organização não deve ignorar um nanomaterial simplesmente porque não existe limite de exposição específico, nem concluir que toda substância em nanoescala é automaticamente mais tóxica do que sua forma convencional. Também não deve confiar exclusivamente no nome químico, na FDS genérica ou na existência de um respirador para considerar o risco controlado.

Não é adequado avaliar somente a produção normal e esquecer limpeza, manutenção, resíduos e terceiros; utilizar ar comprimido ou métodos capazes de aumentar dispersão sem análise; introduzir produto novo sem gestão de mudança; ou solicitar exames médicos indiscriminados apenas porque existe a palavra “nano” na especificação. A prevenção precisa ser baseada em evidências disponíveis, incertezas reconhecidas e controles proporcionais à possibilidade real de exposição.

Checklist estratégico para nanomateriais, PGR e Higiene Ocupacional

Perguntas que a empresa precisa responder
  • A organização sabe quais produtos ou processos utilizam ou geram materiais em escala nanométrica?
  • Existem informações sobre tamanho, forma, revestimento, solubilidade e apresentação física do material?
  • A possibilidade de exposição foi analisada por tarefa e não apenas pelo nome do produto?
  • Limpeza, manutenção, troca de filtros e descarte estão incluídos na avaliação?
  • As medidas coletivas realmente capturam, contêm e retêm o material?
  • As lacunas de informação toxicológica aparecem no PGR e possuem ações para investigação?
  • A proteção respiratória e demais EPI foram selecionados a partir do risco real?
  • Compras e Engenharia comunicam ao SST antes de introduzir materiais nanoestruturados?
  • O PCMSO conhece os nanomateriais e as exposições identificadas no PGR?
  • Trabalhadores e contratadas recebem informação suficiente sobre procedimentos e situações anormais?

Estudos de Caso AMBRAC

Os exemplos abaixo demonstram como o principal problema dos nanomateriais pode não estar na existência da tecnologia em si, mas na diferença entre aquilo que a empresa acredita estar manipulando e aquilo que realmente acontece durante as tarefas.

Estudo de Caso 1 - Produto novo entrou pela área de Qualidade sem revisão do PGR

Uma indústria substituiu determinado aditivo por versão de maior desempenho recomendada pelo fornecedor. O produto passou por testes de qualidade e foi aprovado tecnicamente, porém a informação de que parte de seus componentes possuía estrutura nanométrica não chegou ao setor de SST antes da produção regular. A tarefa de abertura, pesagem e adição manual permaneceu exatamente igual à utilizada com o material anterior.

  • Contexto: Mudança de matéria-prima motivada por ganho de desempenho do produto final;
  • Desafio: Determinar se a nova forma do material alterava a possibilidade e as consequências da exposição;
  • Diagnóstico AMBRAC: A gestão de mudança avaliava qualidade e produtividade, mas não possuía gatilho para análise prévia de SST;
  • Plano de ação: Levantamento das características do nanomaterial, revisão da tarefa de pesagem, consulta ao fornecedor, avaliação qualitativa do risco e análise dos controles coletivos existentes;
  • Resultado: Novas matérias-primas passaram a depender de avaliação integrada entre Compras, Engenharia, Qualidade e SST antes da liberação para uso regular.
Estudo de Caso 2 - Produção era fechada, mas a maior exposição aparecia na manutenção

Uma operação utilizava material nanoestruturado dentro de equipamento enclausurado e considerava a exposição praticamente inexistente durante produção. A revisão do ciclo de trabalho mostrou, entretanto, que filtros e componentes internos eram abertos periodicamente por equipe de manutenção, com presença de material seco acumulado e sem procedimento específico para a atividade.

  • Contexto: Baixa liberação aparente durante operação normal e elevada confiança no enclausuramento;
  • Desafio: Identificar atividades não rotineiras capazes de concentrar material retido durante semanas de produção;
  • Diagnóstico AMBRAC: O PGR havia analisado o operador, mas não o ciclo completo de manutenção do equipamento;
  • Plano de ação: Revisão do procedimento de abertura, descontaminação prévia, acondicionamento dos resíduos, definição de proteção necessária e integração da equipe terceirizada ao gerenciamento;
  • Resultado: A empresa passou a avaliar exposição pelo ciclo de vida operacional do material e não apenas pelo funcionamento normal da máquina.
Estudo de Caso 3 - Revestimento parecia estável até começar o lixamento

Uma empresa utilizava revestimento contendo material nanoestruturado aplicado e curado sobre componentes. Durante a utilização normal, não havia manipulação direta de pó, e o produto era tratado como condição de baixa exposição. O cenário se modificava durante retrabalho e manutenção, quando as superfícies eram lixadas mecanicamente para remoção do revestimento antigo.

  • Contexto: Nanomaterial incorporado a uma matriz sólida durante a maior parte do ciclo de uso;
  • Desafio: Avaliar se o processo de abrasão poderia liberar particulado contendo componentes nanoestruturados;
  • Diagnóstico AMBRAC: O inventário classificava o produto pela condição curada e não considerava a transformação física ocorrida no retrabalho;
  • Plano de ação: Revisão do processo de lixamento, análise de captação na fonte, práticas de limpeza, proteção respiratória e destinação dos resíduos gerados;
  • Resultado: O gerenciamento passou a distinguir a presença do nanomaterial da possibilidade real de sua liberação em cada etapa do processo.

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FAQ – nanomateriais, nanotecnologia, PGR e exposição ocupacional

Nanotecnologia combina inovação com incertezas que nem sempre podem ser resolvidas pelos mesmos métodos utilizados para agentes químicos convencionais. Isso torna especialmente importante distinguir aquilo que já é conhecido daquilo que ainda precisa ser investigado.

Nanomateriais precisam aparecer no PGR?

Quando houver possibilidade de exposição ocupacional ou outro perigo relacionado à produção, manipulação, manutenção ou descarte, essas condições precisam ser consideradas no GRO e documentadas no PGR de acordo com a avaliação do processo. A inexistência de uma NR específica para nanotecnologia não elimina as obrigações gerais de gerenciamento.

O que é considerado nanomaterial?

A Fundacentro trabalha com referência aproximada de 1 a 100 nanômetros para materiais em escala nanométrica, faixa em que determinadas propriedades físicas, químicas e biológicas podem diferir daquelas apresentadas pelo mesmo material em dimensões maiores.

Todo nanomaterial é mais tóxico do que o material convencional?

Não. Alguns nanomateriais apresentam efeitos diferentes ou superiores em determinadas condições, enquanto outros não. O risco depende de composição, tamanho, forma, área superficial, solubilidade, revestimento, atividade biológica e exposição.

Existe uma NR específica para nanotecnologia?

Não existe atualmente entre as NRs uma norma autônoma intitulada nanotecnologia ou nanomateriais. A avaliação utiliza os requisitos aplicáveis da NR-1, NR-9, NR-6, NR-7, NR-26 e demais normas relacionadas ao processo e aos controles utilizados.

Existe limite de exposição para todo nanomaterial?

Não. A Fundacentro destaca que existem poucos limites específicos e que grande parte dos nanomateriais não possui valor ocupacional legal próprio. Por isso, métodos qualitativos e abordagens de precaução podem ser necessários para orientar controles.

O que é NanoCB-Fundacentro?

É uma ferramenta desenvolvida por especialistas da Fundacentro para auxiliar a avaliação e o controle de riscos envolvendo nanomateriais, considerando características relacionadas à severidade, probabilidade de exposição e eficiência das medidas preventivas existentes.

A FDS é suficiente para avaliar um nanomaterial?

Não necessariamente. A FDS é uma fonte fundamental, porém a avaliação pode exigir informações adicionais sobre propriedades nanoespecíficas, processo, literatura técnica, forma física, pulverulência, frequência, quantidade e possibilidade de liberação durante a atividade.

PFF2 resolve qualquer exposição a nanopartículas?

Não. Respiradores precisam ser selecionados conforme a caracterização do risco e não substituem medidas coletivas. A proteção esperada também depende de ajuste, vedação, treinamento, conservação e uso adequado durante toda a exposição.

Produto sólido com nanotecnologia gera a mesma exposição que nanopó?

Não necessariamente. O cenário depende da possibilidade de o material ser liberado. Uma nanopartícula incorporada em matriz sólida pode apresentar baixa liberação durante uso intacto e situação diferente quando o produto é cortado, lixado, triturado ou usinado.

O PCMSO precisa considerar trabalhadores expostos a nanomateriais?

Sim, quando esses riscos forem identificados no PGR. A estratégia de vigilância deve ser definida de acordo com características do material, exposição e evidências disponíveis, evitando tanto a ausência de acompanhamento quanto a solicitação de exames sem justificativa técnica.

Conclusão

Nanomateriais representam um bom exemplo de como a Segurança e Saúde no Trabalho precisa evoluir junto com a tecnologia. A inovação chega rapidamente ao processo produtivo, enquanto conhecimento toxicológico, métodos de avaliação e regulamentação frequentemente levam mais tempo para amadurecer. Entre esses dois momentos existe o trabalhador, que não pode ser protegido apenas quando todas as respostas científicas já estiverem disponíveis.

Isso não significa tratar nanotecnologia como ameaça por definição. Nanomateriais permitem avanços importantes em medicamentos, energia, construção, eletrônica, revestimentos, materiais mais leves, produtos mais resistentes e inúmeras outras aplicações. O desafio da SST é garantir que esses ganhos tecnológicos não sejam acompanhados de exposições que a empresa sequer reconheceu.

O primeiro passo é descobrir onde a nanotecnologia realmente está. Muitas organizações podem utilizar materiais nanoestruturados sem que SST participe da decisão de compra ou desenvolvimento. Por isso, informações de fornecedores, FDS, especificações técnicas, Pesquisa e Desenvolvimento, Engenharia e Produção precisam chegar ao gerenciamento de riscos.

Depois, é necessário observar a forma física e a tarefa. Nanopó, suspensão e material incorporado em matriz sólida não devem ser tratados como situações equivalentes. Uma estrutura aparentemente estável pode se transformar em fonte de partículas durante lixamento, manutenção ou descarte, enquanto uma matéria-prima altamente dispersiva pode exigir contenção desde a abertura da embalagem.

A ausência de limite específico também não pode interromper a prevenção. A Fundacentro vem estudando métodos de controle por bandas e desenvolveu a NanoCB-Fundacentro justamente porque a gestão desses materiais exige ferramentas capazes de orientar decisão mesmo em situações de incerteza quantitativa.

Os controles devem seguir a hierarquia preventiva. Eliminar ou substituir quando tecnicamente possível, reduzir a dispersão, enclausurar, automatizar e captar na fonte são medidas mais robustas do que depender exclusivamente de comportamento individual. Respiradores, luvas e outros EPI podem ser necessários, mas precisam ser selecionados a partir da exposição real e não apenas pela presença do prefixo “nano”.

Outro ponto decisivo é acompanhar o material ao longo de todo o ciclo de vida. Produção pode estar controlada e manutenção não; aplicação pode gerar pouca exposição e lixamento posterior gerar muita; a matéria-prima pode permanecer contida e o filtro usado concentrar o contaminante durante a troca. O risco não termina quando o produto deixa a bancada do operador.

A Medicina Ocupacional também precisa conhecer essas exposições. O PCMSO deve ser coerente com o PGR e utilizar as evidências disponíveis para construir vigilância proporcional, valorizando queixas e alterações sem criar exames padronizados sem fundamento.

Por isso, a pergunta estratégica não é simplesmente “nossa empresa utiliza nanotecnologia?”. A pergunta tecnicamente mais útil é: “em quais etapas o nanomaterial pode realmente alcançar o trabalhador, que incertezas ainda existem e quais barreiras implementamos enquanto essas respostas são aprofundadas?”

A AMBRAC apoia organizações nessa análise, conectando PGR, Higiene Ocupacional, FDS, proteção respiratória, PCMSO, trabalhadores e gestão de mudança para que tecnologias emergentes sejam implantadas com prevenção proporcional aos riscos e às incertezas existentes.

Como a AMBRAC pode apoiar sua empresa

A AMBRAC apoia empresas, laboratórios e operações industriais que utilizam materiais nanoestruturados ou possuem dúvidas sobre a possibilidade de exposição ocupacional durante produção, pesquisa, manutenção ou descarte.

PGR, Higiene Ocupacional e avaliação do processo
  • Levantamento dos produtos e processos com possível presença de nanomateriais;
  • Caracterização das tarefas e pontos potenciais de exposição;
  • Integração das informações ao inventário de riscos e plano de ação;
  • Análise qualitativa do risco e apoio na definição de avaliações adicionais;
  • Revisão das medidas coletivas, contenção e exaustão;
  • Integração de manutenção, limpeza, terceiros e resíduos ao gerenciamento.
Proteção respiratória, capacitação e vigilância da saúde
  • Revisão da seleção de respiradores e demais EPI quando aplicáveis;
  • Integração das exposições ao Programa de Proteção Respiratória;
  • Capacitação dos trabalhadores sobre riscos e práticas de prevenção;
  • Revisão dos procedimentos de derramamento e limpeza;
  • Integração dos riscos identificados ao PCMSO;
  • Apoio à gestão de mudanças antes da introdução de novos materiais e tecnologias.

Fontes oficiais consultadas

Sua empresa sabe onde a nanotecnologia entrou no processo?

Se sua organização utiliza nanopós, revestimentos, aditivos, materiais avançados, produtos nanoestruturados ou processos capazes de gerar partículas ultrafinas, a AMBRAC pode apoiar sua equipe na identificação das exposições, revisão do PGR, análise das medidas coletivas, proteção respiratória e integração ao PCMSO, sem presumir que todo nanomaterial possua o mesmo risco e sem prometer ausência de exposição, adoecimento, autuações ou passivos. Revisar riscos de tecnologias emergentes

 

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